Sábado, Outubro 17

Morro do Macaco, RJ, 17/10

A madrugada começou com "fogos de artifício" anunciava meu pensamento preguiçoso ainda de um sono recente. Sábado cinza, às 3h20. Aos poucos, o que poderia ser uma festa - diga-se de passagem de gente muito animada - foi se cristalizando em rajadas amarelas, alaranjadas que cortavam o céu da Zona Norte do RJ, em Vila Isabel, pertinho do Morro do Macaco.
A Vila, que já foi de Noel e de Luis Carlos, dava sinais de sobrevida e cheirava a sangue. Senti uma dor no estômago forte, uma agonia mesmo estando "protegida" a alguns metros do bombardeio. Era como se eu estivesse ali, junto a mães, crianças, velhos, homens e mulheres, trabalhadores em meio as rajadas e explosões de tiros, muitos tiros. Uma dor pela minha infinita pequenez humana e impotência diante do que rugia em meus ouvidos. Uma dor pela nossa miséria humana, pelos aplausos às Olimpíadas de 2016, ao choro emocionado do presidente Lula, ao sorriso forçado do governador da cidade maravilhosa Sergio Cabral Filho, à festa na praia de Copacabana, princesinha do mar 50 anos atrás.
Uma dor pelo tráfico ser uma economia rentável e mortal para a maioria dos jovens que nascem e vivem nos morros e nas periferias das nossas cidades. Um desespero pela nossa desestrutura, pelas filas de doentes sem convênio médico nos hospitais públicos, a luta pela caixa do remédio que dá uma sobrevida aos velhos, o esgoto onde as crianças brincam como se estivessem num rio, o lixão que é o pão e a mesa de muita gente, tristeza pela máscara que pusemos na cara e o perfume que disfarça nosso fedor.
Morremos todos. Não é possível... meu tormento na madrugada era este: "não é possível". É sim Fabiana. E está aí, pra quem quiser ver, pra você ver. E não são baratas que podem ser esmagadas numa batida de chinelo. Já foram todos bebês.
Quem somos? O que queremos? Que mundo a gente quer efetivamente e qual o tamanho da força que precisamos para conquistá-lo?!
Milhares de outros ataques virão. E não tem nada de pessimismo nisso. É manchete no jornal, sensacional. Esse discursinho babaca de quem vive bem e acha que o problema está muito, muito longe. Mentira!
Aqui em SP a gente gosta desta fala, falsa. Está tudo aqui, no nosso Haiti.
Somos todos iguais nesta noite.

11 comentários:

Letícia disse...

É isso! Fedor, mentiras e aplausos, muitos aplausos.

Márcio Costa disse...

Entendo perfeitamente sua dor. Vi um menino morrer em pleno ano novo porque não estava em seu posto de vigilância. Menino este do tráfico.... sua mãe n'outro dia, comprava pão tranquila na padaria da esquina... foi verídico e vi tudo.

glaucia chris disse...

é triste mesmo. eu não presenciei a madrugada, mas estive ali perto hoje durante a manhã, e como foi dolorido ver que essa guerra estava acontecendo debaixo do meu nariz.

rafael disse...

Estão acabando com nosso rj os traficantes os bandido estão quase dominando a nossa cidade maravilhosa de q adianta fazer uma olimpiada se nossa cidade naum é respeitada e onrrada qq isso kade a nossa privacidade fika a onde da q uns dias naum vamos poder nem passiar pelas praias queremos justiça

claudio roberto disse...

Há tráfico porque há consumo.

Ana Eloïsa disse...

Falta bom senso, humanidade e lucidez aos "que vivem bem". Muros eletrificados não dão e nem darão conta do apartheid que desejam. O povo bonito e festeiro que involuntariamente ajuda a vender este Brasil de mentira com seu sorriso e esperança irrevogáveis está chorando: do lado de fora dos muros.

Paulo Ferraz disse...

Temos que recuperar essa fonte inesgotável que são os morros cariocas,de onde sairam e ainda saem tantos compositores geniais,são tantos sambas antolôgicos que falam dos morros.
De onde sairam as maiores obras primas desse Brasil.
Só um exemplo:morro do São Carlos Estácio- Luiz Melodia,Gonzaguinha,Sidney da Conceição "que tem sambas que foi gravado por Clara Nunes",e por ai vai,se falar de todos os morros cariocas,hoje não acaba.

Tem o imortal Bezerra da Silva que cantava os compositores dos morros carioca e da baixada fluminense.

Se alguem tiver uma visão bem elaborada,esses morros vão ser a maior fonte turística do Rio de Janeiro,que é uma cultura fantástica,como diria Padeirinho no seu samba "linguagem do morro".

Anônimo disse...

Temos que recuperar essa fonte inesgotável que são os morros cariocas,de onde sairam e ainda saem tantos compositores geniais,são tantos sambas antolôgicos que falam dos morros.
De onde sairam as maiores obras primas desse Brasil.
Só um exemplo:morro do São Carlos Estácio- Luiz Melodia,Gonzaguinha,Sidney da Conceição "que tem sambas que foi gravado por Clara Nunes",e por ai vai,se falar de todos os morros cariocas,hoje não acaba.

Tem o imortal Bezerra da Silva que cantava os compositores dos morros carioca e da baixada fluminense.

Se alguem tiver uma visão bem elaborada,esses morros vão ser a maior fonte turística do Rio de Janeiro,que é uma cultura fantástica,como diria Padeirinho no seu samba "linguagem do morro".

Paulo Ferraz

Valdir disse...

O duro Fabiana é ter que concordar com você. Gostaria de poder bradar que não é assim, mas infelizmente minha consiencia não me deixa. Realmente tudo fede e nós, impotentes, vemos o mundo desfalecer em nossas próprias mãos.
Que Xangô erga seu oxé e faça cair a justiça sobre todos. É meu único pedido e desejo.

Mario Souza disse...

Estamos numa guerra civil,vi o filme "Salve Geral" onde o PCC aterrorizou São Paulo,e até hoje aterroriza,é muito triste vê isso.
É uma pena.

Marcos disse...

Ai Fabiana nos morros do Rio o que rola é isso http://www.youtube.com/watch?v=rdMgnLkBn0c&feature=fvw
um abraço.