Quinta-feira, Novembro 26

Celebrar... Paris



Durante quatro horas ininterruptas senti o vento rosnar meus ouvidos e me despedir. Entramos numa turbulência que eu e minhas guias acreditamos piamente que não passaria de alguns minutos. Chamei todos os meus protetores e pedi calma. A tripulação e os passageiros controlaram-se. Ao meu lado, uma francesa que aparentemente parecia estar habituada à situação, roeu todas as unhas e manteve as mãos espalmadas, como se rezasse. Ao seu lado, um cidadão português dormia o sono de um bebê embalado pelo balé que o avião exibia no ar. Estávamos na Costa da Mãe África. Acorrentados, humilhados diante da imensidão da Natureza e sua revolta.


Uma multidão ensurdecedora gemia para nós. Sentimos na pele. Douglas Alonso, ao meu lado, na carne. Passou muito mal. Nestas horas, as mãos são grandes companheiras de afeto e amizade. Demos nossas mãos como fazemos há 8 anos trabalhando juntos.

Nenhuma terra à vista. Lisboa estava ainda a 4h38 minutos. Cabo Verde à frente da rota do comandante, Senegal à direita. Grilhões de mais de 300 anos arrastando pelo chão uma linha para o fim.

Tive uma profunda vontade de quebrar minhas correntes e provar apenas da ternura, da compaixão e do bem-estar. Desatar os nós e caminhar descalça com uma voz que nina crianças e homens de guerra. Ouvir o Rubi cantar. Pedir sempre desculpas quando necessário e amar incondicionalmente, sem fantasmas.

Quando enfim cheguei ao hotel e acessei a Internet, um email carinhoso de minha amiga Chloé anunciava o dia com um convite para jantar com ela e o Gé, meu amigo baixista. Às 20h40 Gé estava no hall do hotel e saímos por Paris. Sentados os três à mesa do restaurante tipicamente francês, nos alimentamos, brindamos nossa amizade e celebramos a vida.

4 comentários:

marcello disse...

PQP nega!!!
Que susto heim..
Leva uns acaças pra ir jogando no caminho....rsrs
BJ

Jogo Perfume no ar, Enfeito meu pensamento disse...

Com a delicadeza que lhe é peculiar, vc transformou um momento de angustia em um episódio cheio de ternura e sutiliza. Nunca havia lido um descriçao tao linda de um momento tao apavorante.

E eu que queria ir para Paris com vc, fiquei mais conformada de nao ter podido ir. Acho que morreria neste momento...de pavor.

Já venci meu medo de aviao no dia que fui ve-la em Sao Paulo...mas acho que ele, nofundo, sempre estará ali...pairando em minha cabeça.

Como queria estar ai...faria da minha ida a Paris ainda mais inesquecível.

Te amo, minha preta.

Que bom que tudo sai bem.

Deus sempre lhe protegerá.

Bj

Giovanna Longo disse...

Mas, que jeito mais doce de descrever uma turbulência!!

Guto Leite disse...

Vou destoar um pouco e fugir do tema, eu sei, mas acho que é o espaço que vc vai ver mais facilmente o elogio. =) Sou compositor, estudo canção na universidade e devo gravar meu primeiro cd no ano que vem. Sou também super comedido nos elogios, MAS você estava absolutamente fabulosa no Som Brasil. Poucas vezes ouvi e vi interpretações tão impecáveis! Timbre maravilhoso, afinação milimétrica, interpretação supimpa! Na minha pequena opinião, você conseguiu sacar demais a música do Paulinho da Viola, sua contenção, a melancolia da letra e da melodia, enfim... Você, como artista, se tornou, para mim, um dos bons motivos deste cético apreciador de arte continuar conhecendo artistas (e vivendo). Muitos parabéns e que teus sucessos e ouvintes sejam sempre multiplicados! Muita energia boa também!