Acabo de ler o texto abaixo no site de um dos meus mestres, Nei Lopes, e resolvi compartilhá-lo com vocês. Nei fala da origem do "son" cubano e traça comparações com o samba levantando questões e "alfinetando", chamando atenção, para nossa "desafricanização". O DVD intitulado "The Sons of Cuba" saiu há uns 4 anos. Lembro-me de comprar um exemplar que demorou uns 20 dias pra chegar ao Brasil. Nele, muitos artistas da nova cena instrumental, do rap e da canção cubanas dão seus depoimentos sobre o cotidiano na "Ilha", seus estudos, o desejo de liberdade e a honra de fazerem uma das melhores músicas do mundo.
Aqui, o site do Nei Lopes para a gente ter sempre embaixo dos dedos http://www.meulote.blogger.com/
Abraços,
Texto de autoria do compositor e filósofo Nei Lopes, extraído de seu blog (http://www.meulote.blogger.com/)
“Hay que globalisar, pero sin perder la eséncia”.
(Neíto “Che” López)
Assim como o samba é a espinha dorsal da música popular urbana do Brasil, o “són” é a base da música cubana. Feito basicamente para dançar, o “són” gerou o bolero, o mambo, o chá-chá-chá, o “latin jazz” etc., da mesma forma que o samba viu nascer, de suas entranhas, o samba-canção, o samba-de-breque, a bossa-nova (no inicio referida como “samba moderno”), o samba-jazz, e por aí afora.
Cotejando as duas melhores músicas populares do mundo, vamos ver, ainda, que o amplo complexo da rumba também equivale ao do samba. Mas aí já não falamos mais do samba urbano, carioca, e, sim, daquele conhecido desde pelo menos o século 19, que engloba os sambas-de-roda, o coco, o tambor de crioula, o baião etc.
E vamos ver que o partido-alto de Cuba se chama “són montuno” (de “monte”, mato, roça, já que a tradição do improviso é rural, como a do nosso calango, que é pai do partido-alto; e que os partideiros de lá – e os há muitos e magníficos – são chamados “montuneros”).
Nessa elaboração comparativa, observemos que aquilo que se denomina hoje, de forma genérica e indiscriminada como “salsa”, é também uma decorrência do “són”. Mas a “salsa” é um “són” desidratado. Mal comparando, é como um samba da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo; ou do conjunto Sete de Ouros, do Maestro Cipó; ou do grupo de Ed Lincoln; ou, ainda, do grupo Fundo de Quintal, interpretado, por exemplo, pelos simpáticos rapazes do Raça Negra, sucesso na década de 1990, a partir de São Paulo. Deu pra entender?
Pra nós aqui do Lote, a grande desvantagem da música brasileira em relação à cubana é a predominância, a partir da bossa-nova, da harmonia em detrimento do ritmo; da poesia em detrimento do balanço, a tristeza se sobrepondo à alegria.
Ou alguém aqui acha que o “Barquinho”, apesar de sol, sal e sul, é música alegre? Alegres eram aqueles sambas feitos até a década de 60, embora lamentosos, em tom menor. O sambista pedia à tristeza pra, por favor, ir embora, mas dizendo no pé. E a tristeza balançava as cadeiras. O malandro chorava que dava pena, por amor à Madalena, que o tinha abandonado, destruindo em seu jardim uma linda flor, mas o fazia cheio de suíngue, com aquele gestual africaníssimo, os braços fletidos, como se lutasse, dançando, sempre pra frente (gestual de zulu protestando contra o apartheid, lembram?). Enquanto isso, o pessoal do barquinho ficava sentado no tapete ou nas almofadas do apartamento, prestando atenção só nas “aranhas” e “pestanas” que os castroneves e os menescais faziam nos seus cantinhos e violões. Dançar? Como? As cinturas eram duras, compay!
Mas todo esse papo, que daria (ou ainda vai dar) um livro, é só pra dizer que, através da pujança do “són”, os cubanos acharam o caminho, tão sonhado pelos bons e conscientes músicos brasileiros, para unir, mesmo, a contribuição européia à herança africana; somar conhecimento teórico a ritmo contagiante; e, finalmente, incorporar a moderna música internacional, emanada dos guetos negros dos EUA (a terceira força musical do mundo) à sua música, sem perder a Identidade. Globalizar sem perder a essência.
Todo eso está, sin embargo nem bloqueio, explícito no magistral DVD “The sons of Cuba” – trocadilho do espanhol “són” (som, música) com o inglês “son” (filho, herdeiro).
Nele, através de um roteiro espertíssimo, inclusive dramatizado, o saudoso “montunero” Pío Leyva (1917 – 2009) é levado a um passeio pelo rap, pelo hip-hop, pelo pop, pelo jazz, pelo bolero etc., sem que em nenhum momento a grandeza e a dança do “són” deixem de estar presente.
Quem conhece as possibilidades do Samba; que se entristece com sua desafricanização (tão flagrante que Vinicius de Moraes resolveu inventar um negocinho chamado “afro-samba”, no qual o grande Baden Powell não teve culpa nenhuma); e espera vê-lo, um dia, sem vergonha de seus tambores (relegados, aqui, ao papel de “cozinha”), realmente triunfar em escala global, como o “són” cubano já triunfou, não pode deixar de ver esse DVD exemplar, e extremamente oportuno.
Domingo, Novembro 8
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