Segunda-feira, Dezembro 22

Amigos, ótimo Natal e Salve 2009!

Aos amigos que me 'encontram' neste blog e pelas ruas e palcos das cidades, meu agradecimento por mais um ano de companhia, alegrias musicais partilhadas (e sempre serão), aplausos carinhosos e emocionados. Pra vocês, um pequeno trecho do poema 'Mudar' de Clarice Lispector. Estes são realmente os meus votos de Natal e Ano Novo pra todos vocês. Um abraço forte e axé!
"(...)
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!!"

Quinta-feira, Dezembro 18

De volta

O céu do Brasil é São João. As estrelas tocam viola e com elas celebro nossa volta. O mar, pai e mãe, está logo abaixo ditando em poucas conchas a direção de suas águas.
O negrume traz o vento forte e perfuma a madrugada com damas. Galos despertam os interiores do Brasil. Já não o tenho atravessado na garganta. Aceno agora com um lenço e me recordo dos sonhos e de uma gravidez que me preenche hoje e sempre. Ela tem jabuticaba nos olhos, couro no tamborim e canto verde.

Domingo, Dezembro 14

Bom dia Tóquio!

Shibuya amanhece com o mesmo sol que nos recebeu há 13 dias. São 8h25. Minha altura hoje é outra, estou mais perto da esquina, tenho 8 pernas rumo ao arranha-céu. Reverencio Tóquio em silêncio. A ele entrego o mesmo abraço e as flores que me deram ontem, à saída do Orchard Hall. Ao povo que fica, paz, amor e generosidade. Com eles aprendi mais sobre a doçura, a sabedoria de fazer tudo em equipe sempre e impedir a vaidade de se aproximar, de estar e ter disposição a qualquer hora para o trabalho e um sorriso em todas as ocasiões e imprevistos.
Axé Japão! Obrigada! Tô embarcando... O destino é aquele: o coração onde o meu repousa profundamente.

Última noite - Osaka-Tóquio

Hoje me encontrei com as montanhas após seis shows em Nagoya e um ontem, em Osaka. O rosto desaguou numa saudade silenciosa, cinzenta, ávida de sol. Milton Nascimento guiou o caminho até Tóquio com sua flecha na garganta. Eu, um rio. A montanha observando o trem, como a Serra do Curral acompanha BH.
Veio muita gente viajar: minha mãe Inês, meu pai Oswaldo, a Beth Coutinho, a Karú, a nêga Olívia, o Marcão, meu amor André, a Adelinha, a Fabi e o Dani, o César Dassie, o Tizumba, o Pererê, o Alanzinho Rocha, a Valerinha, a Val do Dodô, a Angelita e a Café, o irmão Marcelino que sempre vem, o Bill e a Renatinha, a Beth Woolley, o Rô e seu cavaco, a Raquelzita, o Dan Lima, o Flavinho, o Renatão, o Irineu, o padre Alfredo, o nêgo Aloisio e sua voz de ouro, o Mi, lá da Alemanha, a Chloé e o Gé, de Paris, o Pê, minhas avós também vieram... de longe, de ontem.
O samba viajou com o pé na soleira, como pedaço de pão, de óstia.
O Brasil é meu plano de vôo, são meus olhos, meu grito desesperado, o primogênito, a bala que fere, minha voz trêmula, o tempo que se despede e abre a porta pra eu chegar.
Minas, quanta saudade de você... Minha manjedoura com folhas de macela, nossa Senhora e os negros do Rosário, meu candombe, meu terreiro, o tambor mais grave onde planto e enterro os meus...
Maria Carol, Thiaguinho (Delegado), Thiagão, Suca e Inês, Mineiro, Didi, Eugrácia, Grazi, Geo, reis e rainhas, todos viajaram. O Pará veio com o Leandro Medina. Mãe Zezé veio e pôs sua mão santa sob minha cabeça e Iemanjá me coroou com seu filho guerreiro, zelador das pedreiras.
Madrinha sempre esteve.
Como é bom dizer de vocês!
Kaçula e a Barra Funda também subiram no vagão, minha irmã Juliana, meus tios e primos e meu primeiro sobrinho, que ainda não conheço, vieram também. Jorge e Jarbas vieram, o Da Lua veio, o Ildão, o Polets, o Luizinho 7 Cordas, o Alê Cardoso trouxe o cavaco, chamou o Charlito e o Silvério Pontes. Evaldo veio.
As cozzitas vieram eufóricas e carinhosas como sempre, com trufas.
De mãos dadas com cada um, voltar é uma questão de segundos.
Ontem sonhei com um prato de macarrão do Pasquale e da Cleide. A berinjela que minha mãe me ensinou a fazer, o feijão da Karú (ou da dona Celina), a rabanada que o André compra pra gente lá em Vila Isabel, a feijoada do Antonio do Ó do Borogodó.
O choro secou. A vista já tem mais de mar e logo ali tem araras, mugunzá, gérbera turquesa na Dr. Arnaldo, tropeiro, buzinas ensurdecedoras, peito quente pra eu deitar, cama branca pra agradecer e descansar a cabeça...

Sexta-feira, Dezembro 12

Olhos Negros - Nagoya

Ele se chama Koffe. É o primeiro homem negro que vi no Japão. Tem um dente de ouro na frente e trabalha há um mês no Blue Note de Nagoya. Está longe de Gana, seu berço, há sete anos. Segundo ele, este é o tempo que conhece a neve. Tem um olhar dócil e anda quase que esbarrando um joelho no outro no alto de seus 1.80cm mais ou menos.
Aproximou-se de mim pelo passado. Parecia saber de onde eu era apesar do ouro que não tenho na boca. Porém, sabemos da mesma realeza. Cantei. Ele aproximou-se novamente e me disse, em inglês: "Thanks, I cried".

Terça-feira, Dezembro 9

Tóquio - caminhada

Acabo de voltar de um passeio por Tóquio... uma caminhada, a bem da verdade. Começou a chover e tive que comprar um guarda-chuva (odeio guarda-chuvas!) mas tudo tem um charme quando se está num lugar desconhecido e você é estrangeiro. Pura superficialidade... :)

Comprei de um modelo transparente igual ao dos amigos japoneses e saí, meio cubana (cabeça toda coberta por um lenço verde), pelas ruas. Aliás, no aeroporto, um moço perguntou se eu era cubana ou baiana... Quase acertou: paulistana!!! hahahaha...

Entrei numa lanchonete pra tomar uma sopa e estava tocando bossa-nova. Fiquei refletindo um pouco sobre o porquê dessa paixão que os japoneses alimentam há tantos anos pela bossa-nova pra além da beleza das composições, da música.
Existe uma calma, uma lentidão, um excesso de tranqüilidade e contemplação na bossa-nova que combina com os japoneses. Eles têm outro tempo, mais lento... São aparentemente muito calmos. A bossa-nova tem tudo a ver com Tóquio. É felina, sinuosa, rebolativa. Sem o fogo do samba. Tem um fogo baixo. Mesmo os jovens daqui, com suas roupas e combinações extravagantes, também são felinos... tenho reparado no olhar das pessoas e, em algum momento, eles dormem ou parecem dormir. Isso também não tem a ver com horário... acontece de repente... é quase um descanso instantâneo, um piscar de olhos que dura segundos, minutos. É muito divertido observar e aprender com eles... um respiro em meio a poluição da cidade. Arrisco questionar se esta pausa não serve para libertá-los do excesso de informação publicitária das ruas. É um bombardeio na cidade. Telões imensos com mulheres cantando, propagandas ininterruptas e gigantes humanos projetados nas laterais dos prédios como os monstros dos desenhos japoneses. Você fica olhando o tempo todo pra cima e para os lados.

Cruzando as ruas, senti falta de um barulho familiar a nós: buzina. Elas são praticamente mudas aqui. Ninguém atazana ninguém. Também nem sei se adiantaria: todo o mundo anda com fone no ouvido.

Tóquio está americanizada. Acho que o mundo inteiro bebeu os EUA (o que há de melhor e pior) e essa "TAO" da globalização não preservou cultura de ninguém. Rolo compressor. Ai, Cuba, Cuba! A ilha também está afundando...

Estou já há 5 dias aqui e até agora vi duas senhoras com quimonos típicos e belíssimos, chinelinhos menores do que o tamanho real dos pés, meias brancas. Cintos largos de tecidos dourados fazendo um laço atrás do vestido. Cabelos arredondados e seguros por palitos coloridos. Muito elegantes. Aliás, essa é uma característica do povo japonês. Todos são muito elegantes. Uns mais discretos. Os jovens muito menos, mas elegantes igual. Cabelos cortados como os tais ideogramas. Despontados, coloridos... gostam muito de um tom alaranjado ("acaju", diria minha mãe).

A culinária resiste mesmo no modelo importado dos fast-foods. Os sushis e sashimis são vendidos como os acarajés em Salvador ou os hot-dogs em SP. Experimentei uns deliciosos.

Mas pra mim o que faz essa cidade ser especial é a simpatia, a cordialidade e o excesso de gentileza do povo japonês. Eles são encantadores e delicados todo o tempo. Muitos aqui não falam, sequer entendem inglês mas fazem de tudo para lhe compreender e atender bem. Me diverti muito ontem numa loja de cosméticos tentando comprar maquiagem com uma vendedora japonesa. Ríamos muito. Mímica pura. Voltei com tudo o que precisava e tive uma manhã divertida. É comovente... dá vontade de abraçar todo o mundo. Mas, como o contato do abraço não é da cultura deles, distribuo sorrisos por onde passo.

Segunda-feira, Dezembro 8

Tóquio - Segunda noite - Andros

3h59. Aqui, domingo.

O pensamento além do Pacífico. Em agosto sobrevoei as montanhas que abraçam as Gerais e tive a certeza do meu Lugar. O choro sobre as pedreiras de Xangô apontou para a tribo dos meus, dos velhos, e uma pena pousou no topo da gigante mais alta. 'É aqui', dizia. O avião seguiu viagem e flutuei sob Confins com coração batendo lento.

Tóquio me desperta na madrugada que amo e, por amá-la tanto assim, me preservo imóvel embaixo de algum teto, sempre nestas suas horas misteriosas: 3h, 4h, 5h da manhã. São segundos raros em que novas regras se estabelecem diante do Panteão. Enquanto isso, a nós, cabe o silêncio, a resignação.

Abro os olhos à espera e com um sentimento enorme de liberdade. Eu, que talvez nunca tenha me sentido dentro de uma gaiola, sou agora abraçada pela estrada.

Desperto com asas presas às costas e convido-te para um vôo sem hora marcada ou chegada certa. Nada nos pertence. Ouço uma canção sem acentos. Deslizo contigo soprada pelos deuses que nos aceitam e confiam a nós sua ordem de amor. Eles nos permitem o arroubo da madrugada. Não há cabeças ou corpos. Sobrevoamos agora o mar dourado, estamos frescos e cheiramos a jasmim. Ouço choros contidos de gente que ainda será sonhada.

Respiro leve. O branco tinge de paz o amor de você. Me incandeio e persigo teus passos e a crença de que o amanhã é agora. Tóquio pulsa intensamente 4h15. Cruzando o Pacífico, mais 3 ou 4 latitudes, ganho o Brasil. Ao sul, o Redentor, protegido também pelas pedreiras, me dá você que me sopra o rosto, nina, afaga os cabelos, pousa os pés sob os meus, aquece minhas costas, enlaça meu corpo com um braço, sua boca quente. Durmo na certeza de que o que era Lugar virou Reinado.

Sábado, Dezembro 6

Japão - Primeira noite

Tóquio nos vê com muitos olhos. Calmos, felinos, vermelhos como os dragões de seus ideogramas. A cidade obedece às regras de suas linhas em curtos golpes de espadas. As ruas e a sinalização do trânsito, o movimento das pessoas baila à forma dos desenhos que compõem as palavras no idioma japonês. São linhas, muitas.
A claridade abraça Tóquio como mãe. A noite é azul profundo e o sol nasce laranja muito antes da 'Alvorada' invadir o morro da Mangueira.
O povo daqui observa como os matutos do Vale, do Jequitinhonha. Talvez se conheçam. Mas têm o riso contido. Cordial. Interno. São 23h13 e o bairro de Shibuya mantém a esquina mais populosa do mundo em franca atividade. Do 18 andar do Excel Hotel não há gatos coloridos. Todos são negros e vestem casacos. 11 graus.
Um corpo verde foi preservado em meio a tanto concreto. Dizem que lá respira parte do sagrado que protege este oriente.
Não há Cruzeiro do Sul aqui. Parece que as estrelas caíram do céu. Mas estão em algum lugar. Quiçá a música as desperte!